Quando observamos as Escrituras, vemos que o dízimo era regulamentado pela Lei. Em Levítico 27:30 está escrito: "Também todas as dízimas da terra, tanto dos cereais do campo como dos frutos das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor." O dízimo estava ligado ao sustento dos levitas, ao serviço do templo e ao funcionamento do sistema religioso de Israel. Em Números 18:21 Deus diz: "E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança." Portanto, o contexto do dízimo era nacional, sacerdotal e relacionado à aliança mosaica.
Além disso, muitas pessoas desconhecem que o dízimo bíblico não tinha como finalidade apenas o sustento dos levitas. Deus também determinou que ele servisse para auxiliar os necessitados da sociedade israelita. Em Deuteronômio 14:28-29 está escrito que os dízimos deveriam beneficiar os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Da mesma forma, em Deuteronômio 26:12 lemos que parte do dízimo era destinada aos levitas, aos estrangeiros, aos órfãos e às viúvas para que comessem e fossem saciados. Isso mostra que o dízimo possuía também uma função social importante dentro da nação de Israel, ajudando aqueles que se encontravam em situação de necessidade.
Outro ponto frequentemente ignorado é que o dízimo bíblico não era normalmente entregue em dinheiro como acontece em muitas igrejas atualmente. O dízimo era composto principalmente por cereais, azeite, vinho, frutos da terra e animais dos rebanhos. Levítico 27:32 declara: "No tocante a todas as dízimas de vacas e ovelhas." Em Deuteronômio 14:22-23 encontramos referências aos grãos, ao vinho e ao azeite. Israel era uma sociedade agrícola, e por isso o dízimo estava diretamente relacionado à produção da terra e dos rebanhos. Embora houvesse situações específicas envolvendo conversão para dinheiro durante viagens longas, o padrão bíblico do dízimo estava ligado aos produtos da terra e não ao salário recebido em moeda, como muitos imaginam hoje.
Quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos Jesus mencionando o dízimo em Mateus 23:23, mas falando com judeus que ainda estavam debaixo da Lei antes de sua morte e ressurreição. Após o estabelecimento da nova aliança, o ensino apostólico passa a enfatizar a liberalidade e a generosidade do coração. Em 2 Coríntios 9:7 Paulo escreve: "Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." Observe que o apóstolo não estabelece uma porcentagem obrigatória. Ele fala sobre disposição interior, amor e voluntariedade.
Em 2 Coríntios 8:12 ele ensina que a oferta é aceita conforme o que a pessoa tem, e não conforme o que não tem. Isso mostra que Deus olha primeiro para o coração e não para um percentual fixo. Em Atos 2:44-45 os primeiros cristãos compartilhavam seus bens espontaneamente para suprir as necessidades dos irmãos. Em Atos 4:34-35 vemos o mesmo princípio acontecendo sem qualquer imposição legal de dízimo. A marca da Igreja primitiva era a generosidade, não a cobrança.
Isso não significa que o cristão deva ser avarento ou negligente com a obra de Deus. A diferença está no método. A nova aliança enfatiza contribuição voluntária em vez de obrigação legal.
Um exemplo frequentemente citado no Brasil é a Congregação Cristã no Brasil, que não pratica a cobrança de dízimos e recebe ofertas voluntárias dos seus membros. Independentemente de concordar ou não com todas as doutrinas dessa denominação, ela é um exemplo conhecido de uma igreja que procura seguir o princípio da contribuição espontânea sem estabelecer um percentual obrigatório para os fiéis. Isso demonstra que existem comunidades cristãs que entendem os ensinos do Novo Testamento de forma diferente das igrejas que adotam o sistema do dízimo como prática regular.
Também é importante compreender que, embora muitos cristãos entendam que o dízimo não seja uma obrigação da nova aliança, isso não elimina a necessidade das contribuições para a manutenção da igreja. As congregações possuem despesas reais e precisam de recursos para continuar funcionando. Contas de água, energia elétrica, internet, manutenção predial, materiais de limpeza, equipamentos, reformas, evangelização, assistência social e diversas outras necessidades dependem da colaboração dos membros. Além disso, uma das finalidades mais nobres das contribuições cristãs é o auxílio aos necessitados, seguindo o exemplo da Igreja primitiva e o ensinamento de Jesus sobre amar o próximo.
O mais importante é compreender que oferta e dízimo não são exatamente a mesma coisa. O dízimo estava vinculado à legislação da antiga aliança, enquanto a oferta aparece tanto no Antigo quanto no Novo Testamento como uma expressão de adoração, gratidão e amor a Deus. O cristão não deve contribuir por medo, pressão psicológica, constrangimento ou para tentar comprar bênçãos divinas. Deus não vende milagres e não negocia sua graça. A salvação foi conquistada por Cristo na cruz e recebida pela fé.
Quando o crente contribui, ele o faz como resposta ao amor de Deus, reconhecendo que tudo o que possui vem do Senhor. Como diz Salmos 24:1: "Do Senhor é a terra e a sua plenitude." E como ensinou Jesus em Atos 20:35, registrado pelas palavras de Paulo: "Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber."
Portanto, a discussão não deveria girar apenas em torno de porcentagens, mas em torno da fidelidade, da gratidão e da disposição do coração. Quem defende o dízimo deve fazê-lo com base em sua convicção diante de Deus, e quem entende que a nova aliança ensina a contribuição voluntária também deve agir segundo sua consciência iluminada pelas Escrituras. O que a Bíblia condena não é a generosidade, mas a avareza, a exploração da fé e a tentativa de transformar a contribuição cristã em um fardo. O modelo apresentado pelos apóstolos é o de um povo que contribui com alegria, amor e responsabilidade, sustentando a obra de Deus não por imposição da Lei, mas porque foi transformado pela graça de Cristo. À luz do Novo Testamento, não encontramos um mandamento obrigando o cristão a entregar exatamente dez por cento de sua renda. O que encontramos é um chamado para contribuir de forma consciente, voluntária, proporcional às suas condições e movido pelo amor a Deus e ao próximo. Afinal, a verdadeira generosidade cristã não nasce da obrigação, mas de um coração grato que reconhece tudo o que recebeu do Senhor.
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